Crônica: O Card do Raichu


Todo jogador de Pokémon tem um monstrinho que é um parceiro de todos os momentos. Aquele que capturamos todo jogo possível, que guardamos para os momentos mais frenéticos das batalhas, ou até mesmo acabamos dando mais atenção durante o modo historia dos games.

Qual o seu? O meu, com certeza é o Raichu. Mas é claro que tem um motivo para isso e é uma historia bem interessante e hoje quero dividi-la com vocês da Mothim. E antes de mais nada, convido vocês para contarem as suas historias nos comentários.  Dito isso, vamos lá.


Durante os anos 2000 eu morei em uma casa na zona sul de São Paulo, que ficava localizada na mesma rua da escola em que eu estudava. E nessa época eu era viciado em Pokémon, talvez até mais do que sou hoje. Nas sextas eu saía mais cedo da escola, como de costume fui até em casa e quando cheguei encontrei meu tio, ele trazia com ele uma coleção gigante de cards de Pokémon para mim. Fiquei abismado, haviam monstrinhos ali dos quais eu nem sabia que existiam. Embora eu já amasse Pokémon, eu considero esse momento como um dos catalizadores dessa minha paixão. A maioria das cartas eram da primeira expansão ou segunda. Outras eram da segunda gerção já, algumas eu tenho até hoje. Posteriormente consegui alguns cards mais legais como o do Celebi e do Suicune, que ganhávamos ao ir no cinema assistir o filme ''Viajantes do Tempo''.

meus cards antigos ainda estão enxutos!

Mas enquanto lia os diversos livros de regras que vinham com os decks, descobri um fato obscuro para mim até então, o Pikachu podia evoluir em Raichu! Era algo bem diferente do habitual Pikachu e eu fiquei fascinado. Infelizmente eu não tinha nenhum Raichu em minha coleção. Depois disso fiquei anos procurando o monstrinho até que alguns anos depois, quando eu tinha 11 anos eu finalmente consegui um card do tão aclamado Raichu.

Ainda estudava na mesma escola e na época os cards de Pokémon tinham viralizado. Todos os meus colegas tinham um baralho centrado em um ou dois monstrinhos prediletos deles. Eu e com meu baralho do Raichu me tornei virtualmente invencível. Não era o card mais overpowered da coleção, mas nem todos tínhamos dinheiro para comprar cards melhores. Por tanto, dependíamos quase sempre dos trainer cards, e monstrinhos mais fortes de nossos baralhos. Também tínhamos que temer os inspetores da escola que quando nos pegavam com algum tipo de card de Pokémon ou os destruíam em nossa frente (!!!) ou os confiscavam. Era uma vida abaixo da lei para os treinadores mirins naquela época. 

Não demorou para a minha onda de vitórias chamar a atenção de alguns ''valentões'' da escola. E sim, eles também jogavam. O ''lider'' deles era um garoto grande, bem maior que eu que detinha o recorde da escola em Pokémon antes de mim. A gente conhecia ele por ele ter um card de um Umbreon que já tinha obliterado a maioria dos outros garotos que jogavam conosco. Sua regra cruel era que quem perdesse entregava seu monstrinho perdedor para ele. É, eu sempre digo que crianças podem ser cruéis. Ao fim do primeiro bimestre o encrenqueiro já tinha feito um exército de Pokémon ganhos das outras crianças. 

Por mais que eu tentasse me afastar dele, os garotos que andavam com ele sempre me provocavam na esperança de me trazer para algum combate. Eu também andava com mais alguns garotos que gostavam de Pokémon, mas não eramos nem um pouco páreos para os encrenqueiros. Em uma certa tarde, estava copiando minhas lições da lousa, quando ouvi uns burburinhos vindos das mesas de meus colegas mais próximos. Foi quando ouvi o que eu mais temia: o valentão tinha me desafiado para jogar contra ele e se eu perdesse deveria entregar meu tão amado Raichu. Ao fim da aula todos se reuniram próximos de mim para saber se iria aceitar o desafio. E bem, para não ser taxado de covarde eu realmente aceitei. A batalha ocorreria no dia seguinte no fim do período letivo. 

Quando cheguei em casa eu subi correndo para meu quarto e comecei os preparativos ali mesmo. Troquei alguns trainer cards, coloquei alguns monstrinhos para dar suporte ao meu Raichu, e por ai vai. Passei a noite toda me preparando para o grande dia. Lições de casa? Que nada, larguei tudo na mochila. Por fim, quase de madrugada não suportei e sucumbi ao sono, mas no dia seguinte estaria completamente preparado. 

Ao chegar na escola após a hora do almoço, me encontrei com todos os garotos que jogavam e combinamos as regras. Seria ao fim do aula, como dito anteriormente, próximo ao portão da escola. (que ficava aberto na hora da saída, por tanto não estaríamos de fato na rua. Fomos para nossas aulas, eu mais apreensivo do que nunca. As outras crianças espalharam a notícia pela escola, mas não deu tanto ibope, só para quem jogava Pokémon. Eles meio que depositaram em mim as esperanças para vingar todos os seus esforços, esvaídos em vão. 

No fim do dia nos posicionamos no local combinado, eu cheguei antes e aos poucos todos foram se juntando para assistir. Quando o garoto chegou, todos ficaram calados se olhando ou sussurrando. Em silêncio montamos o playmate, nos sentamos, embaralhamos os cards e começamos a distribuir os prize cards e nossos cards da mão. A partida foi bem equilibrada e seguiu empatada, parecia obra do destino mas no fim nos sobrou apenas Raichu vs Umbreon. Demorou, mas no fim Raichu massacrou o Umbreon sem piedade, praticamente o venci pelo cansaço já que gastou todos os seus recursos tentando parar outros Pokémon do meu baralho. 



Embora muitos dos garotos que estavam comigo comemoravam a minha vitória, ela me deixou mais assustado do que feliz, visto que o encrenqueiro ficou furioso com sua derrota. Depois de guardarmos nossos cards ele reuniu sua turma de valentões e começaram a me ameaçar e me intimidar. Só deu tempo de pegar meu baralho correndo, jogar ele dentro da mochila e correr pela rua. Era um bando de crianças malucas vindo atrás de mim e se eu não as despistasse logo, com certeza perderia meu Raichu e ganharia alguns ferimentos. Corri para a avenida que fazia paralelo com a minha rua e vi um ônibus parando no ponto. Eu corri para ele e pedi ajuda, no mesmo momento o motorista abriu a porta e acelerou, deixando os encrenqueiros para trás. Os vi no vidro de trás me xingando e sumindo no horizonte.

Esse poderia ter sido um final feliz, mas na verdade, não. Não havia sentido eu pegar um ônibus, sendo que eu morava no fim da rua da minha escola. Eu agi sem pensar e agora estava num ônibus que se distanciava cada vez mais da minha casa. Muitos de vocês podem até imaginar que não tenha sido uma decisão inteligente, mas se ponham no meu lugar. O pior é que quando o motorista descobriu que eu não tinha dinheiro, ficou extremamente enfezado e me colocou para fora do ônibus. 

Agora eu estava sozinho numa vizinhança desconhecida, perdido e sem nem um tostão. Nessa época já existiam celulares, mas ninguém na minha idade tinha um, salvo exceções. Sabia que estava só alguns quarteirões distantes da minha casa. Parei em frente a um barzinho que tinha um orelhão. Me encostei na haste de aço que segurava o telefone e abri minha mochila, só para ter certeza de que meu baralho estava lá, assim como meu Raichu. Para minha alegria, sim estavam todos lá. Quando vi meu amado Raichu novamente fiquei aliviado e feliz, foi uma sensação que valeu a pena e era como se fosse meu bem mais precioso. 

Depois disso ainda tentei ligações a cobrar para meus pais, mas não obtive sucesso. O resto da caminhada foi cansativa e duas horas depois, próximo a rua da minha casa e escola, a diretora me encontrou vagando e me levou de volta para casa. Não podia dizer o real motivo do acontecido ou todos os cards de Pokémon seriam confiscados e destruídos na escola, por tanto disse que não se passava de uma brincadeira. 

Quando cheguei em casa meus pais até que me deram uma bronca colossal, mas eles confiavam em mim. Também não podia contar para eles o real motivo de minha fuga, ou não me permitiriam jogar Pokémon na escola nunca mais. Seria nosso segredo, murmurei pro meu card. Depois disso, Raichu não só se tornou um dos meus Pokémon favoritos como também, um monstrinho indispensável em quaisquer times de quaisquer jogos de Pokémon, mesmo tantos anos depois disso.

Recentemente, estava em uma padaria próxima de casa com meu 3DS jogando Pokémon Blue no virtual console, quando encontrei um velho colega desses tempos. Ficamos relembrando daquele dia e ele me contou que nunca mais alguém roubou os Pokémon dos outros na escola de novo. Eu havia saído da escola no ano seguinte portanto não fiquei para ver isso acontecer. Rimos bastante quando mostrei o monstrinho com o qual jogava no 3DS, não por acaso, meu mais novo Raichu.


em 17/10/16
Comentários
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Um comentário:

  1. Iago A. Damasceno19/10/16 20:06

    nossa que top. Eu morava em cidade pequena no Pará os únicos cards que chegava lá era uns que vinha com figurinha bem barrela tinha que abri 10 pra vim do pokemon, te que em 2009 chegou uns cards diferentes que vinh 4 cards em cada pacote e o melhor podia sereciona de qual anime queria pokemon , Yu Gi Oh!, naruto etc , foi uma febre na escola, ai eu não tinha dinheiro nem pra compra balinha, fui com o ne pai e pedir 1 real e comprei 4 pacote fiquei muito feliz, como na escola a moda era brica d bafo com os cards por que os cardes são piratas é impossível sabe joga com eles, ai eu fui juntando os que ganhava e separava os do pokemon e usava os outros na ganha + cards .ai eu murdei de cidade nunca + vir aquele tio de card só achava o mais simples. ate hoje tenho eles. em 2014 conheci o POKÉMON TCG ONLINE foi amo a primeira vista apendi como se joga, nas nunca conheci um fã de pokemon pessoalmente TT--TT. É EU SEMPLE FUI FÃ DO ANIIME NEM SABIA O QUE ERA DS PELO MENOS 3DS, JA CHOREI MUITO VENDOS OS FILMES O UNICO QUE NÃO CHOREI FOI O DO HOOPA, O MEU PREFERITO É NUMERO 1 RSRRSRSR O bulbasaur QUE EU SÓ CHAMO ELE DE BUBASAURO. E CONTINUA........

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