''Sombra''


O gélido vento soprava forte pelas ruas vazias daquela pequena cidade. Junto dele, um homem de jaqueta preta, barba por fazer, caminhava só enquanto esfregava os braços com os dedos enluvados, tentando, em vão espantar o frio da noite.
Nem muito tarde, nem mesmo muito cedo, as luzes da rua se apagaram subitamente.
Naquele breu, o homem tentou olhar para frente, nada viu, olhou para trás, o resultado não fora diferente. O jovem, então, olhou para cima, buscando o céu estrelado. Enxergou as sombras dos baixos prédios tentarem alcançar a lua, os galhos das árvores dançando a melodia noturna daquelas rajadas maliciosas. As siluetas pareciam se esticar para cima, como se tentassem inibir ao solitário aquela vaga sensação de liberdade.
Por tanto obrigar-se a enxergar um palmo ao redor de si, o homem ficou tonto e cambaleou para o lado. Por pouco não caíra no chão. Tentou segurar-se no muro da casa ao seu lado direito, mas a parede de concreto estava mais distante do que lembrava. Ele escorregou a ponta dos dedos no reboco áspero do muro e caiu de joelhos ao lado dela.
Sentiu o frio novamente atacar o seu corpo. Levou os olhos para baixo, depois para frente. Ainda não podia ver nada além da fraca luz vinda da lua e das poucas estrelas que, uma a uma, se escondiam atrás das densas nuvens que atravessavam os céus.
O homem levou uma das mãos para dentro da jaqueta, mas parou no meio do caminho. Sentiu a ponta de seus dedos arderem, devido à queda que não conseguiu parar. Mas o homem ignorou a dor, o frio e a visão o atormentavam ainda mais.
Fechou a jaqueta na frente do tórax, e procurou um bolso externo, de onde tirou um isqueiro, que gentilmente levou até próximo a sua face.
Tentou acender a chama daquele instrumento pirotécnico, mas seu polegar doía e seu corpo hesitava. Trocou a mão que segurava o isqueiro tentou acendê-lo novamente. Tentou uma, duas vezes, até que conseguiu ligá-lo na sexta tentativa. Sua mão esquerda não possuía a mesma maestria que a mão direita, afinal.
Olhou fixamente para a chama por alguns instantes, até que ela se calou sem aviso. O homem tentou reacender o isqueiro, mas uma onda gelada percorreu sua espinha, fazendo seu corpo tremer de medo. Deixou o isqueiro cair, seu corpo paralisou.
Tentou mover-se, mas não conseguiu. Sentia uma presença, algo olhando fixamente para si, como se pudesse enxergar sua alma. Sentia-se violado, indefeso. Levou a mão para o chão, quando finalmente conseguiu mover o braço, levou as mãos para o chão, e tateou em busca de seu isqueiro, mas não o encontrou.
Lutando contra a asfixia, o homem se levantou e olhou ao redor. Conseguia ver agora, apesar de aquelas vultos, mas definitivamente preferia voltar à escuridão plena que enfrentar aquela visão.
Os vultos tinham face, sombras com rosto, que riam em sua direção. Olhos esbugalhados e bocas deformadas substituíram a paisagem noturna – as árvores, a rua, a calçada, até mesmo as casas e prédios não estavam mais lá.
O homem tentou olhar para cima, tentando afastar o som dos risos. Não conseguiu. Em vez disso, sua atenção fora voltada para o lugar onde deveria estar o muro em que estava apoiado. Mas em vez desse, havia um rosto ainda maior do que os outros. Numa questão de segundos, o rosto abriu sua boca, duas ou três vezes mais que o seu próprio tamanho e lambeu o rosto do homem, jogando-o para trás.
Após ser arremessado por uma distancia indefinida, o homem ficou frente a frente, e de joelhos, com a maior de todas as sombras, enquanto as menores flutuavam ao seu redor.
Tentou se levantar, mas o corpo do homem não o respondia.
A sombra riu, deliciando-se da paralisia do homem, do sofrimento daquele jovem.
Foi na segunda gargalhada que o homem sentiu o seu peito queimar, que sentiu a esfera dentro de sua jaqueta chamá-lo de alguma forma. Rezou para que, dessa vez, o seu corpo lhe respondesse, e, sem hesita, levou a mão até dentro de sua jaqueta, retirou a esfera de seu suporte de velcro e a arremessou para frente.
No ar, a esfera se expandiu e abriu, libertando a grande luminária incandescente.
Junto da liberdade de sua criatura, o cenário caótico dissolveu. As faces revelaram sua verdadeira forma; uma horda de Gastlys.
Com Chandelure livre de sua pokebola, os Gastlys ocultaram as suas presenças e fugiram do Pokémon mais forte, entretanto a verdadeira face da sombra gigantesca continuou naquele campo de batalha. O destemido Gengar não recuou, em vez disso, aceitou o desafio imposto pelo Pokémon de fogo.
Com o sangue quente de treinador, o homem arremessou uma pokebola vazia contra Gengar em um momento crítico da batalha, fazendo com que o Pokémon fantasma torna-se seu por direito.
O homem continuou de pé após o fim daquele desafio. Sentia o corpo cansado por receber um ataque direto de um Pokémon mas, após capturá-lo, seu corpo dava sinais de melhoras, permitindo que o treinador recuperasse a pokebola de Gengar.
Pegou a esfera de aço escovado e olhou para seu reflexo no metal vermelho da pokebola. Parou, pensou um pouco, e levantou os olhos na direção do Pokémon vencedor daquela batalha. Terei medo de mais um de meus Pokémon, pensou o homem, olhando para seu Chandelure.
Em troca, o Pokémon de olhos laranja, a medida do possível, esboçou um sorriso para o seu treinador.
O homem riu, retirou as luvas que ocultavam a pele de suas mãos e recuperou a pokebola de Chandelure após guarda a de Gengar. O treinador apontou a esfera bicolar para seu monstro, revelando para a luz do luar a dura e cruel cicatriz de queimadura que tatuavam as costas de ambas as mãos.
-Agora não terei mais medo.

Marcelo Hagemann dos Santos

em 31/10/14
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